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Quem sustenta o talento antes e depois do reconhecimento?

KondZilla e Kaique Alves falaram de educação e da construção de um negócio. Bruninho trouxe o aprendizado de continuar no esporte, lidar com a pressão e preparar uma nova etapa. As conversas aproximam ambição e formação sem apagar as diferenças entre as trajetórias.

Apresentação de KondZilla e Kaique Alves no palco, com o percurso de editor a diretor no telão.
KondZilla e Kaique Alves no painel What Does It Take?, no Forbes Under 30 Summit 2026.

KondZilla contou que levou algum tempo para entender a atividade econômica da empresa que estava construindo. Eles se apresentavam como uma produtora de videoclipes, mas a receita vinha da distribuição do audiovisual, e o produto que circulava dentro daquele vídeo era a música. Essa mudança de entendimento ajuda a explicar uma história que, no palco, ele e Kaique Alves escolheram contar pela educação.

Fui Forbes Under 30 em 2021, na categoria Tecnologia e Inovação. Fiquei feliz em participar da primeira edição brasileira do Summit, em 29 de outubro, em São Paulo, e acompanhar conversas que ajudam a enxergar o trabalho por trás das trajetórias reconhecidas.

As apresentações de KondZilla e Kaique, em What Does It Take?, e de Bruninho, na conversa From Talent to Excellence com Fernanda Almeida, me levaram a pensar nas condições que permitem a uma capacidade se desenvolver. Aprender, encontrar quem invista e conseguir continuar trabalhando aparecem conectados a escolhas pessoais, mas também à forma como as organizações funcionam.

A educação precisa encontrar um lugar para ser praticada

KondZilla cresceu próximo da educação. Sua mãe era professora, assim como suas tias, e ele pôde estudar numa escola particular porque ela trabalhava ali. Depois da morte da mãe, decidiu usar recursos do seguro de vida para estudar computação gráfica. Na apresentação, o funk apareceu como um caminho para aplicar o conhecimento e construir uma atividade profissional.

Kaique chegou ao audiovisual por outra experiência. Contou que começou a aprender edição por conta própria, com vídeos, artigos e referências, e encontrou nos artistas próximos uma demanda para os primeiros trabalhos. Quando entrou na KondZilla, já produzia e vendia. Seu desejo de estudar cinema em Los Angeles vinha acompanhado de iniciativa, mas ainda precisava de condições para avançar.

Uma das primeiras iniciativas da empresa foi colocar um professor de inglês à sua disposição. A formação começou antes da viagem e do curso de cinema. Mais tarde, quando Kaique conseguiu juntar dinheiro para estudar por um período curto, recebeu a proposta de ter os estudos custeados pela empresa.

A empresa investiu em alguém que já entregava trabalho e precisava desenvolver uma habilidade anterior ao curso de cinema: o inglês. Houve estudo e espaço para assumir novas responsabilidades. É essa combinação que me interessa: o que a pessoa aprende precisa encontrar lugar nos projetos e nas decisões do negócio.

Investir em alguém envolve tempo e incerteza. Quem recebe formação continua precisando de oportunidades para entregar e de feedback para reconhecer onde erra. Para a organização, o aprendizado se torna uma capacidade compartilhada quando pode circular e melhorar o trabalho de outras pessoas. Ao mesmo tempo, a trajetória profissional não pertence à empresa: tornar-se melhor também amplia as escolhas de quem aprendeu.

Entender o produto muda o destino do investimento

A leitura de KondZilla sobre música e distribuição amplia essa relação. Melhorar a produção dos vídeos fazia parte do trabalho. Compreender como a música circulava e como aquela circulação gerava receita abria espaço para decidir onde desenvolver novas competências.

No relato da dupla, videoclipes, publicidade, dramaturgia e administração de direitos passaram a se conectar. Uma música podia encontrar outros caminhos num projeto audiovisual. A experiência com uma audiência podia ajudar a construir um projeto para uma marca. A formação de alguém da equipe podia permitir avançar numa nova frente de produção.

Minha leitura é que essas conexões tornam o investimento em pessoas uma decisão sobre o futuro do negócio. Desenvolver um diretor ou alguém capaz de conduzir uma produção amplia o conjunto de trabalhos que a empresa pode assumir. Ao mesmo tempo, esse movimento pede capacidade de vender, organizar e sustentar a entrega.

KondZilla relacionou sua formação em gestão e contabilidade à compreensão dos modelos de negócio e do funcionamento financeiro das atividades. Esse aprendizado ajuda a perguntar onde o valor é criado, como a receita chega e o que a empresa precisa desenvolver para avançar.

O canal de distribuição também entra nessa conta. A dupla descreveu como o YouTube permitiu alcançar público por um caminho diferente da curadoria de televisão e rádio. Essa história também me faz olhar para os limites do canal escolhido. Quando uma parte importante da distribuição e da receita passa por uma plataforma, suas condições de funcionamento entram nas decisões do negócio. É uma questão para considerar ao desenvolver outras formas de alcançar o público.

O próximo estágio muda o papel do talento

Kaique descreveu a passagem da execução criativa para um trabalho que incorpora clientes, equipes e gestão de pessoas. Projetos maiores passam a exigir coordenação entre muitas contribuições. A habilidade que tornou alguém reconhecido continua valiosa, mas outras capacidades precisam ser desenvolvidas junto dela.

No palco, a trajetória ganhou um novo capítulo com o anúncio de Kaique como sócio da KondZilla, à frente da área de produções originais. O relato reúne a formação financiada, a ampliação das responsabilidades e uma nova posição no negócio. Isso dá materialidade à discussão sobre desenvolver pessoas: o espaço de atuação também precisa poder crescer.

Para mim, essa mudança exige aprendizado dos dois lados. Quem assume uma nova função precisa construir repertório para exercê-la. Quem lidera precisa abrir espaço, acompanhar o desenvolvimento e aceitar que parte da capacidade da organização ficará nas mãos de outras pessoas. A formação tem pouco espaço para produzir efeito quando toda decisão continua concentrada no mesmo lugar.

Bruninho trouxe outra dimensão dessa liderança ao falar de companheiros mais jovens. Sua experiência precisa encontrar a energia e as referências de quem está chegando. Ele descreveu uma troca em que também aprende e é provocado pelos outros. Liderar uma equipe passa por entender essas diferenças e criar condições para que elas contribuam com o trabalho coletivo.

As trajetórias partem de condições diferentes

A aproximação entre os painéis exige preservar suas diferenças. KondZilla e Kaique falaram da periferia, de formação e da construção de oportunidades no audiovisual. Bruninho cresceu numa família de atletas de referência e reconheceu a importância desse ambiente para sua paixão pelo vôlei. Também falou da pressão para construir uma trajetória própria.

Essas condições não são equivalentes. Acesso, referências e recursos participam do que cada pessoa consegue tentar e do risco que pode assumir. A dedicação aparece nas três histórias, mas não explica sozinha as oportunidades disponíveis. O interesse, para mim, está em entender que condições foram construídas ao longo do caminho e como mais pessoas podem ter acesso a elas.

Bruninho e Fernanda Almeida no palco identificado como From Talent to Excellence.
Bruninho e Fernanda Almeida no painel From Talent to Excellence.

A capacidade de continuar também faz parte do preparo

Na conversa com Fernanda, Bruninho contou que a derrota na final olímpica de Londres, em 2012, afetou sua relação com o vôlei. Sentia-se preparado física e tecnicamente, mas precisava compreender melhor o que acontecia consigo. Chegou a perder a conexão com uma atividade que sempre tinha feito parte da sua vida.

O processo que descreveu envolveu autoconhecimento e aprendizado para lidar com as emoções. Meditação e respiração apareceram entre as ferramentas que incorporou ao longo dos anos. Seu relato incluía a intenção de se tornar uma pessoa e um capitão mais preparado para quem estava ao seu lado.

Esse ponto amplia o que se entende por preparação. Uma pessoa pode continuar dominando sua atividade e encontrar dificuldade para permanecer nela. No relato de Bruninho, recuperar essa relação passou a fazer parte do próprio trabalho de continuar na carreira.

Ele também falou dos custos de viver por tanto tempo em função do esporte: períodos fora do Brasil, datas importantes perdidas e escolhas que afetaram a vida pessoal. Disse que hoje consegue buscar um equilíbrio diferente. Essa revisão importa quando ouvimos histórias de dedicação. A experiência de alguém que venceu não transforma cada sacrifício em condição obrigatória para quem está começando.

Esse relato me interessa também pelo espaço que abre para rever o caminho. Bruninho falou de continuar enquanto encontra vontade na rotina e de pensar em outra etapa quando isso mudar. Ouvir uma trajetória reconhecida inclui levar a sério essa possibilidade: preservar o vínculo com o que se faz pode significar seguir, mudar de papel ou escolher outro caminho.

O aprendizado acompanha a mudança de responsabilidade

KondZilla contou que voltou mais de uma vez aos mesmos cursos. A prática mudava as dúvidas com que chegava à sala de aula. Bruninho, ainda jogando, retomou os estudos em Processos Gerenciais para preparar uma próxima etapa profissional. Nas duas histórias, aprender acompanha a mudança do trabalho.

É esse movimento que mais me interessa nos dois painéis. O investimento na formação de Kaique encontrou espaço em projetos maiores e em novas responsabilidades. O preparo de Bruninho precisou incluir sua relação com a pressão, com os companheiros e com o futuro da carreira.

Investir na formação de alguém exige abrir espaço para que essa pessoa pratique, assuma responsabilidade e continue aprendendo. A conversa com Bruninho acrescenta um limite importante: quem se desenvolve também precisa poder rever o caminho. O futuro de um talento pode incluir seguir, mudar de papel ou começar outra etapa.

Cobertura dos painéis What Does It Take?, com KondZilla e Kaique Alves, e From Talent to Excellence, com Bruninho e Fernanda Almeida.

Fontes

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Founder da NewHack e OpenAI Codex Ambassador. Cofundador e ex-CEO da Shawee, que se fundiu à Rocketseat, onde foi COO e CEO. Aplica essa experiência na conexão entre empresas, desenvolvedores e empreendedores. Lidera também a AI House Brasil e escreve sobre empreendedorismo, inovação e IA aplicada a quem constrói.

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