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Antes de ser Forbes Under 30, eu quase quebrei

Sonhei com a lista desde os 19 anos. Entre aquela ambição e o reconhecimento em 2021, precisei enfrentar uma crise de caixa, rever o negócio dos meus sonhos e aprender a medir o que estava construindo.

Card de Rodrigo Terron com a identificação Forbes Under 30.
Rodrigo Terron, reconhecido na lista Forbes Under 30 de 2021, na categoria Tecnologia e Inovação.

Quase toda semana, alguém me pergunta o que me tornou um Forbes Under 30 e o que pode fazer para chegar lá. Nunca consegui responder com a certeza que a pergunta parece pedir. Consigo contar o caminho que percorri, as decisões que mudaram esse caminho e o quanto a minha relação com aquele sonho se transformou.

Fui reconhecido em 2021, na categoria Tecnologia e Inovação. Foi um momento muito especial da minha vida. Quando olho para os anos anteriores, porém, lembro também de uma sala no segundo andar do Cubo, de dívidas que não sabia como pagar e da dificuldade de aceitar os limites da empresa que eu mais queria ver dar certo.

Participar da primeira edição brasileira do Forbes Under 30 Summit, em 29 de outubro, me fez revisitar essa história. O encontro aproximou pessoas reconhecidas em momentos diferentes, com trajetórias que continuaram muito depois da lista. Saí de lá pensando nas perguntas que recebo e no cuidado necessário para respondê-las.

Quando o reconhecimento vira uma medida de si mesmo

Descobri o que era o Under 30 aos 19 anos e coloquei aquilo entre os meus objetivos. Havia uma admiração legítima por pessoas que estavam construindo coisas relevantes tão cedo. Também havia a vontade de ser visto como uma delas. Naquela idade, eu ainda não sabia separar muito bem essas duas coisas.

Anos depois, já na comunidade do Cubo, uma pessoa me disse que faria uma indicação. Criei uma expectativa enorme. Eu tinha uma startup de que gostava muito e conseguia enxergar um futuro promissor para ela. Olhando hoje, vejo que ainda estávamos no começo e que o alcance do nosso trabalho era pequeno perto do que poderíamos construir.

Naquele ano, meu nome não apareceu. Hoje, entendo que o meu trabalho ainda precisava amadurecer. A expectativa tinha me levado a antecipar um reconhecimento enquanto a empresa ainda exigia respostas que eu não sabia dar.

Com o tempo, fui percebendo a linha tênue entre desejar que um trabalho seja reconhecido e precisar desse reconhecimento para acreditar no próprio valor. Uma lista pode representar uma conquista importante. O risco aparece quando começamos a escolher o que rende uma boa apresentação da trajetória e deixamos em segundo plano o trabalho que precisa ser feito para sustentá-la.

A Shawee crescia. O caixa não acompanhava

Em 2019, quase quebrei. Faltava repertório para lidar com o crescimento da Shawee. Vendíamos projetos para grandes empresas, com entregas complexas e custos que precisavam ser pagos muito antes de o dinheiro do cliente entrar.

Para entender o problema, basta acompanhar um projeto ao longo dos meses. A entrega podia estar prevista para abril, mas os fornecedores começavam a ser pagos em fevereiro e março, muitas vezes à vista. Depois vinham a nota fiscal e os impostos. O recebimento podia ficar para junho, dentro de condições comerciais com prazos longos, que chegavam a 90 dias. Havia compromissos vencendo enquanto a receita daquele trabalho ainda era uma promessa de entrada.

Com um projeto, conseguíamos administrar essa distância. Com dez acontecendo ao mesmo tempo, perdemos a mão. Cada venda acrescentava trabalho e também a necessidade de financiar a entrega. O crescimento multiplicou uma fragilidade que, em menor escala, ainda conseguíamos absorver. Sem caixa suficiente e sem acesso a crédito, o problema virou uma bola de neve.

No fim de 2019, sentei com meus sócios em uma sala no segundo andar do Cubo. Lembro de dizer que talvez nem fechar a empresa fosse uma saída simples. Ou fazíamos aquilo dar certo, ou carregaríamos uma dívida por alguns anos. A conversa tinha um peso muito concreto: havia pessoas, fornecedores e compromissos envolvidos no que nós tínhamos construído.

Até então, eu olhava para o crescimento principalmente pelo que conseguíamos vender e entregar. Precisei aprender a olhar também para o intervalo entre assumir um compromisso e ter recursos para cumpri-lo. Um contrato assinado não pagava uma conta que vencia naquele dia. O modelo precisava conseguir sustentar a própria operação conforme ela crescia.

Fazer dar certo também exigiu encerrar um ciclo

Começamos 2020 trabalhando muito para reorganizar a empresa. Até setembro, já havíamos quitado boa parte da dívida. A pandemia foi um período intenso para nós, e a Shawee cresceu. Naquele ano, veio o reconhecimento como Startup do Ano no Startup Awards.

Quase não houve tempo para comemorar. Na semana da premiação, eu estava em Rio do Sul, em Santa Catarina, concluindo meu primeiro processo de fusão. A Shawee se unia à Rocketseat, e aquela decisão encerrava o ciclo da empresa como eu a havia imaginado.

A Shawee era a empresa dos meus sonhos. Por isso, aceitar seus limites exigiu mais do que analisar uma oportunidade de negócio. Eu precisava admitir que o formato que tinha criado talvez não permitisse alcançar a escala que desejava. Havia valor no que fazíamos, mas a ambição pedia uma estrutura diferente.

Em 2019, um investidor tinha descrito o negócio como um bom lifestyle business. Fiquei ofendido. Ouvi o comentário como uma diminuição de tudo o que eu estava tentando construir. Mais tarde, entendi melhor a avaliação: um negócio pode ter clientes, entregar valor e ser bom para seus sócios, sem ter as condições de crescimento que eles imaginam.

Hoje, acho irônico: fiz a Shawee dar certo e acabei reconhecendo sentido na crítica que tanto me incomodou. Eu tinha conseguido recuperar a empresa, mas continuava precisando encontrar um modelo que sustentasse a escala que desejava. Foi uma mudança na forma de entender o meu próprio negócio, depois de viver de perto os seus limites.

Tomar a decisão da fusão exigiu mudar a pergunta. O que, dentro daquele sonho, eu realmente queria preservar? A forma da empresa ou a possibilidade de ampliar o que conseguíamos fazer com ela? Foi preciso abrir mão de uma construção pela qual eu tinha um enorme carinho para participar de uma próxima etapa.

A trajetória ficou maior do que o plano inicial

Na Rocketseat, encontrei um modelo de negócio com condições diferentes de escala. Em cerca de dez meses depois da fusão, tive a percepção de que havíamos avançado mais do que nos dois anos anteriores da Shawee. Eu conseguia ver, na prática, como o mesmo desejo de crescer encontrava possibilidades diferentes quando mudava a estrutura do negócio.

Em outubro de 2021, veio a operação de venda da Rocketseat para a Digital House, um marco de grande relevância para a minha trajetória. Era uma distância enorme em relação à conversa sobre dívidas no Cubo. Entre esses dois momentos, houve trabalho, decisões tomadas com meus sócios e a disposição de rever algo que eu havia criado.

Também passei a atuar como conselheiro na Los Grandes, da qual me tornei sócio. Entrei em um negócio complexo, ligado a uma comunidade muito grande nos games.

No fim de 2021, eu estava envolvido com empresas, pessoas e decisões que exigiam atenção. O Under 30 continuava sendo uma lembrança boa de um sonho antigo, mas, naquele ano, não acompanhei a lista como antes. Não fui atrás de pedidos de indicação.

Naquele ano, minha atenção estava concentrada em fazer essas escolhas darem certo. Foi nesse contexto que o contato da Forbes chegou.

Uma mensagem arquivada e uma revista em Salvador

Foi então que recebi uma mensagem de Luiz Gustavo Pacete, da Forbes. Pelo que conversamos, ele já acompanhava havia alguns anos a minha trajetória: a Shawee, a fusão com a Rocketseat e a operação com a Digital House. Também conhecia minha origem de escola pública e o começo profissional em um call center.

Ele entrou em contato a respeito de uma indicação para a categoria Tecnologia e Inovação. A mensagem ficou nos contatos arquivados do meu WhatsApp. Só fui percebê-la depois que ele comentou em um Stories.

Quando conseguimos conversar, a lista já estava praticamente fechada. Achei que talvez tivesse perdido aquela chance. Segui a vida e continuei sem saber se o meu nome apareceria na edição.

No fim de dezembro de 2021, eu estava em Salvador com a minha família. Na manhã em que a lista saiu, acordei com pessoas me marcando nas redes sociais. Foi assim que soube que aquele sonho dos 19 anos tinha se realizado. Só consegui comprar um exemplar da revista em 2022.

A alegria foi enorme. Junto dela vinha a lembrança de tudo o que não cabia na página: a origem, as pessoas que tinham construído comigo, a crise que quase nos encerrou e as escolhas que eu precisara fazer para continuar.

Página 88 da edição 93 da revista Forbes, com o perfil de Rodrigo Terron na categoria Tecnologia e Inovação da lista Under 30.
O perfil de Rodrigo Terron na lista Forbes Under 30 de 2021. Página 88 da edição 93 da revista.

O que reconheci nas histórias do Summit

No Summit, ouvi histórias que me fizeram pensar nesse intervalo entre a imagem pública de uma conquista e a experiência de chegar até ela. Em várias conversas, reconheci a presença de desafios, de repertório construído ao longo da vida e de um interesse muito vivo pelo que cada pessoa estava fazendo.

Falo do que observei e do que aquilo provocou em mim. Não conheço uma combinação de experiências que garanta a entrada de alguém na lista. Um reconhecimento também envolve contexto, oportunidade e uma decisão editorial sobre a qual não temos controle.

Conhecer pessoas de diferentes gerações do Under 30 ajudou a colocar a lista em perspectiva. Algumas continuaram crescendo por muitos anos, construíram outras iniciativas e receberam novos reconhecimentos. O encontro permitia enxergar a trajetória em movimento, para além do momento em que cada nome apareceu na revista.

Rodrigo Terron diante do backdrop do Forbes Under 30 Summit Brasil 2026.
Rodrigo Terron no Forbes Under 30 Summit 2026, em São Paulo.

O trabalho que continua depois da lista

Minha atuação como investidor também inclui a NG.CASH. A fintech anunciou uma rodada seed de US$ 10 milhões em agosto de 2022, meses depois do meu reconhecimento como Under 30.

Ao longo de cerca de 12 anos, passei por iniciativas que ganharam uma dimensão muito maior do que eu conseguia imaginar no começo. Na Shawee, foram aproximadamente 150 hackathons e um alcance de mais de 100 mil pessoas, no Brasil e em outros países. A Rocketseat, de cuja construção participei, tem hoje uma comunidade de mais de 1 milhão de pessoas. Na Los Grandes, a comunidade passou dos 10 milhões de fãs.

Na NewHack, já impactamos mais de 20 mil pessoas em mais de 100 iniciativas, em cerca de dois anos. São formas diferentes de participação e alcance, em momentos diferentes da trajetória. Cada uma dessas construções pertence também às equipes, aos sócios, aos parceiros e às próprias comunidades.

Vejo esses números como uma dimensão do trabalho, acompanhada de uma responsabilidade: fazer com que a relação construída continue tendo valor para quem participa dela. Uma comunidade pode crescer, mas ainda precisa de razões para permanecer próxima. Uma iniciativa pode alcançar muita gente e continuar exigindo que se entenda melhor o que ela entrega. A escala amplia a possibilidade de fazer algo relevante e também aumenta a obrigação de cuidar do que foi construído.

Rodrigo Terron com Antonio Camarotti diante do backdrop do Forbes Under 30 Summit 2026.
Rodrigo Terron com Antonio Camarotti, CEO e publisher do Grupo Forbes Brasil, no Forbes Under 30 Summit 2026.

O sonho continua. O que quero construir é maior

Se você tem esse sonho, minha sugestão é preservá-lo e tratar o reconhecimento como uma consequência possível. Isso muda a relação com o trabalho: o que você está construindo precisa continuar fazendo sentido mesmo quando o seu nome não aparece na lista. Foi justamente nos anos em que precisei resolver problemas mais difíceis, sem saber se seria reconhecido por isso, que a minha trajetória ganhou outra dimensão.

Crie algo que considere relevante e permita que a sua visão de mundo apareça naquilo que faz. Tenha intensidade para buscar resultado e impacto, junto com a disposição de construir o repertório que essa ambição exige. No meu caso, esse repertório incluiu aprender a financiar o crescimento, ouvir uma crítica que me ofendeu e aceitar que a empresa dos meus sonhos precisava mudar de forma.

Continuo quase obsessivo com o resultado e com a possibilidade de ampliar o alcance do que fazemos. Tenho orgulho daquelas conquistas e, ao mesmo tempo, sinto que ainda há muito por construir. O reconhecimento de 2021 abriu uma nova etapa da minha história, com uma responsabilidade maior sobre o que eu faria a partir dali.

Aos 19 anos, eu imaginava meu nome na lista. Hoje, o que mais me anima é imaginar as iniciativas que ainda vou construir e das quais terei orgulho daqui a muitos anos.

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Founder da NewHack e OpenAI Codex Ambassador. Cofundador e ex-CEO da Shawee, que se fundiu à Rocketseat, onde foi COO e CEO. Aplica essa experiência na conexão entre empresas, desenvolvedores e empreendedores. Lidera também a AI House Brasil e escreve sobre empreendedorismo, inovação e IA aplicada a quem constrói.

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