A era da physical AI chegou. E o Brasil já tem protagonistas
Da robótica nas ruas da China à Tractian, uma reflexão sobre a IA no mundo físico e as oportunidades para quem empreende no Brasil.

Escrevo este texto em um avião, saindo da China em direção à Califórnia, ao Vale do Silício. Foram 12 dias de visitas, conversas e aprendizados. Já compartilhei parte deles por aqui. Mas uma imagem continua voltando à minha cabeça: a inteligência artificial está ganhando corpo.
Nos últimos dois dias, participei da conferência da Agora, em Pequim. Physical AI aparecia nas trilhas de conteúdo e nos estandes. Ao longo da viagem, vi robôs varrendo ruas, fazendo entregas e buscando produtos nas prateleiras de lojas para levá-los ao consumidor.
Eu já vinha falando em palestras sobre a aceleração da robótica e a queda do preço do hardware. Ver essas aplicações de perto deu outra dimensão ao assunto. Quando um robô passa a dividir a calçada com você, fica mais fácil entender o tamanho da mudança que estamos começando a viver.
Volto especialmente animado porque essa história também está sendo construída por brasileiros. E um dos exemplos mais fortes tem um significado muito pessoal para mim: a Tractian.
A IA começa a perceber e agir no mundo físico
Physical AI é o nome usado para sistemas de inteligência artificial capazes de perceber o ambiente, compreender o que acontece e orientar ações no mundo físico. Nos robôs e veículos autônomos, isso inclui transformar imagens, sons e dados de sensores em decisões sobre movimento e interação. A NVIDIA descreve essa combinação de percepção, compreensão e ação como uma frente central da tecnologia.
Robôs e automação industrial existem há décadas. O avanço dos modelos de IA amplia o que podemos tentar fazer com eles: reconhecer situações diferentes, interpretar uma instrução e ajustar a execução às condições do ambiente. Uma tarefa que funciona num vídeo de demonstração ainda precisa provar que funciona todos os dias, com pessoas circulando, objetos fora do lugar e imprevistos.
A escala da robótica ajuda a entender por que a China provoca tanto quem visita o país. Segundo a Federação Internacional de Robótica, em seu relatório de 2026, o mundo instalou mais de 600 mil robôs industriais em 2025. A China respondeu por 59% desse total. Esses números medem robótica industrial, com diferentes graus de inteligência e autonomia, e mostram a base sobre a qual essa nova fase pode avançar.
Também há sinais de que experimentar com hardware está se tornando mais acessível. A Unitree anuncia o humanoide R1 AIR a partir de US$ 4.900, antes de impostos e frete. O valor chama atenção, mas comprar o equipamento é apenas uma parte da conta. A versão de entrada não oferece suporte para desenvolver aplicações próprias. Colocar um robô para trabalhar exige integração, manutenção, segurança e treinamento.
É essa combinação que me interessa: hardware, modelos e ferramentas de desenvolvimento evoluindo ao mesmo tempo. Ela abre espaço para testar aplicações que antes eram difíceis de justificar técnica ou economicamente. O resultado precisa aparecer na operação, no custo e na qualidade da tarefa realizada.

Os agentes também estão ganhando novas interfaces
Ao lado da robótica, os agentes de IA começam a encontrar espaço em outros dispositivos. Em setembro, a Meta apresentou o Muse Charm, um aparelho de bolso pensado para conversar com seu agente Muse. O anúncio ainda não comprova disponibilidade comercial, mas aponta uma direção: parte da nossa interação com IA poderá acontecer por voz e por objetos que carregamos conosco.
Um dispositivo para conversar com um agente e um robô capaz de executar uma tarefa física têm desafios diferentes. Vejo os dois movimentos se aproximando na relação com o ambiente e com o contexto das pessoas. Quanto melhor o sistema entende o que estamos tentando fazer, mais útil pode ser a ajuda que oferece. Tenho a sensação de que ainda vimos muito pouco dessa possibilidade.
A Tractian coloca o Brasil nessa conversa
Em 22 de outubro, a Tractian anunciou uma rodada Série D de US$ 130 milhões, com avaliação de US$ 1,4 bilhão. A empresa fundada por brasileiros alcançou o patamar de unicórnio aplicando IA a um problema muito concreto: entender a condição de máquinas e ajudar equipes a evitar falhas e paradas.
Sua tecnologia combina sensores próprios, dados da operação e modelos de inteligência artificial para identificar problemas e orientar a manutenção. A empresa informa que sua plataforma está presente em mais de 2 mil instalações críticas pelo mundo. Esse caso ajuda a ampliar a conversa sobre IA no mundo físico: há muito valor em compreender o que acontece dentro de uma máquina e ajudar alguém a tomar uma decisão melhor.
Para mim, a notícia também tem um lado pessoal. Tive o prazer de trabalhar com o Igor Marinelli na Shawee. Moramos juntos na Califórnia, construímos uma comunidade por lá e compartilhamos algumas das minhas primeiras experiências profissionais no Vale do Silício. Sou grato por essa história e por acompanhar a trajetória que ele está construindo com o time da Tractian.
Já realizamos duas edições do NewHack Journey na Tractian. Conhecer aquele ambiente ajuda a entender o trabalho por trás do produto. O centro de desenvolvimento e testes em São Paulo me impressionou tanto quanto espaços que visitei na China e nos Estados Unidos.
Há um ponto importante nessa estrutura: testar a IA contra o comportamento real das máquinas. A Sapphire, investidora da empresa, descreve o uso de dados de campo e de máquinas levadas à falha no Tractian AI Center para desenvolver os modelos. Conhecimento de engenharia, hardware e operação entra na construção da inteligência. O diagnóstico orienta o trabalho dos operadores e das equipes de manutenção.
A Tractian chega a esse marco no mesmo ano em que a Enter anunciou uma avaliação de US$ 1,2 bilhão, em maio. São duas empresas fundadas por brasileiros alcançando esse patamar em aplicações diferentes de IA. Vejo nisso um motivo de orgulho e um convite para levar mais a sério nossa capacidade de construir tecnologia competitiva.
Physical AI is the new IoT
Foi com o Alex Dantas, brasileiro e fundador do Circuit Launch, que ouvi uma frase que resume bem esse movimento: physical AI is the new IoT.
O Alex é outro brasileiro protagonista dessa história. Há cerca de uma década, vem aproximando empreendedores, engenheiros e empresas em torno da robótica, com conexões importantes com o ecossistema chinês.
Minha relação com esse espaço também passa pelo Igor. Em 2019, quando moramos juntos na Califórnia, realizamos alguns eventos no Circuit Launch. Voltar a olhar para esse movimento agora conecta o que vivemos naquela época às possibilidades que começam a ganhar escala.
Hoje, o Circuit Launch tem duas unidades na região da baía de São Francisco: uma em Oakland e outra em Mountain View, no coração do Vale do Silício. O próprio espaço lista Cartken e 1X entre os exemplos de produtos desenvolvidos ali. É um lugar em que a construção de uma comunidade se encontra com o trabalho de colocar hardware no mundo.

A frase que ouvi do Alex me ajuda a pensar na evolução do valor que extraímos dos objetos conectados. A internet das coisas ajudou a colocar sensores nas máquinas e trazer seus dados para os sistemas. Com IA, podemos avançar na interpretação desses sinais, no diagnóstico e na escolha do que fazer a partir deles.
Conectar, interpretar e agir continuam sendo capacidades distintas. Há situações em que a tecnologia deve alertar ou recomendar, com uma pessoa responsável pela execução. Em outras, uma tarefa delimitada pode ser automatizada. A autonomia precisa fazer sentido para o risco e para o contexto de cada aplicação.
Por isso, vejo espaço para empresas que conhecem profundamente uma operação. Quem entende o funcionamento de uma fábrica, de um armazém ou de uma atividade no campo conhece também as exceções que tornam o problema difícil. Esse conhecimento pode orientar a escolha dos dados, o desenvolvimento do produto e a forma de medir se ele está funcionando.
Como transformar esse momento em valor
O Brasil tem problemas relevantes, profissionais experientes e operações que podem se beneficiar dessa combinação. O mesmo relatório da IFR registra quase 4.300 novos robôs industriais instalados no país em 2025, crescimento de 38% sobre o ano anterior. É um avanço que reforça a oportunidade de desenvolver soluções próximas de quem vai usá-las.
Para quem empreende, eu começaria por uma tarefa. Onde a falha de uma máquina interrompe a produção? Onde uma pessoa repete um esforço físico que poderia ser reduzido? Onde uma inspeção acontece tarde demais? Quanto esse problema custa hoje?
Depois, procuraria um ambiente em que fosse possível testar com segurança e comparar o resultado. Tempo de parada, erros, retrabalho, esforço da equipe e custo por tarefa ajudam a avaliar a utilidade da solução. Também é preciso observar o que acontece quando ela falha e quem consegue retomar o trabalho.
A Tractian me inspira por essa proximidade com uma dor operacional. O sensor, o modelo e o software precisam se encontrar na rotina de quem cuida das máquinas. É ali que a tecnologia tem a chance de justificar seu lugar.
Como nos preparar para conviver com essa mudança
A segunda pergunta que levo comigo é maior: como preparar as pessoas para um mundo em que a IA participa de cada vez mais tarefas físicas? A transição vai exigir formação, novas rotinas de trabalho e clareza sobre responsabilidade. Técnicos, operadores, engenheiros e gestores precisam participar da construção dessas soluções, trazendo o conhecimento que já têm da operação.
Não tenho todas as respostas. Acredito na nossa capacidade de aprender e de nos adaptar, e acredito que podemos criar condições para mais pessoas participarem desse processo. Aproximar quem conhece os problemas de quem sabe construir tecnologia é uma parte desse trabalho que me anima muito.
Volto da China com mais convicção sobre a robótica e com mais perguntas sobre o que vamos fazer com ela. Também volto feliz por ver brasileiros como o Igor e o Alex ajudando a construir essa história, cada um a partir de uma frente diferente. Aos poucos, vamos dividir mais espaços com nossos amigos robôs. Quero ver essa convivência se transformar em trabalho mais seguro, empresas mais produtivas e oportunidades para mais gente.
