Agentes, voz e capital social: o que vem depois da IA que responde
Do iRTE 2026, em Pequim, uma reflexão sobre o que muda quando agentes começam a agir por nós e por que confiança e comunidade ganham importância nessa transição.

Estou em Pequim, na China, acompanhando o iRTE 2026, evento da Agora que reúne mais de 7 mil pessoas em torno de inteligência artificial e interação em tempo real. No painel sobre agentes pessoais, Tony Wang, cofundador da Agora, trouxe uma provocação que ficou comigo: se meu agente pode falar com milhares de pessoas, o que ainda torna uma relação valiosa?
“Qual será o próximo recurso escasso?”
Tony Wang, cofundador da Agora. Em tradução do inglês, durante o painel.
Ele usou a hipótese de um agente que entra em contato com milhares de pessoas no LinkedIn e a comparou ao gesto de alguém escrever pessoalmente uma mensagem. A provocação abre uma discussão sobre capital social: a confiança que construímos, o compromisso entre as pessoas e o valor de uma relação que continua depois da primeira apresentação.
Minha aposta é que vamos expressar mais objetivos em linguagem natural e delegar partes maiores da execução. A voz pode acelerar essa mudança. Junto dessa capacidade, precisaremos pensar melhor sobre o trabalho que queremos automatizar e as relações que queremos cultivar.
O que uma conexão passa a valer
Na resposta, Eugene Wei lembrou que o princípio de remover atrito orientou boa parte da construção de produtos digitais. Só que certos esforços também aproximam pessoas. O compromisso mútuo e o trabalho de fazer algo junto ajudam a formar comunidades. Eliminar toda dificuldade não pode ser o único critério.
Essa perspectiva me interessa muito. Podemos usar IA para organizar uma reunião, recuperar o contexto de uma conversa e preparar uma apresentação. O tempo economizado pode criar espaço para ouvir melhor uma pessoa, cumprir um combinado ou contribuir com um problema que ela está enfrentando.
Ao mesmo tempo, se multiplicamos mensagens sem atenção ao contexto, também multiplicamos o esforço de quem precisa recebê-las. Conseguir chegar a alguém e construir uma relação com essa pessoa são etapas diferentes. Ter um nome numa lista ainda diz pouco sobre o que podemos fazer juntos.
É assim que olho para capital social nesse cenário: relações que permitem aprender, pedir ajuda, contribuir e construir com confiança. A tecnologia pode ajudar a aproximar pessoas. O valor dessa aproximação depende do que fazemos a partir dela.
Quando construímos a comunidade da Shawee no Vale do Silício, aproximar as pessoas veio antes de ampliar a oferta comercial. Os encontros com desenvolvedores criavam espaço para compartilhar conhecimento e conhecer o ecossistema. Essa experiência me ajuda a olhar para a discussão de hoje: ferramentas podem facilitar o primeiro contato, mas construir uma relação continua exigindo participação e contribuição.
O que muda quando a conversa vira interface
O painel também discutiu o próximo ponto de acesso à tecnologia: celular, óculos, fones e dispositivos capazes de compreender o ambiente. A pergunta que me interessa é quanto do nosso contexto um sistema consegue perceber e o que consegue fazer com isso.
Uma pessoa pode mostrar uma peça enquanto explica um problema ou corrigir uma informação no meio da frase. A interação combina fala, imagem e intenção. Projetar para isso exige entender como as pessoas conversam e trabalham.
A programação oficial aproxima essas frentes: IA conversacional, multimodalidade, infraestrutura, aplicações e dispositivos. O debate alcança a experiência completa.
Uma IA precisa saber parar de falar
Numa conversa, precisamos interromper, voltar a um ponto ou corrigir uma informação. O sistema precisa incorporar essa mudança sem obrigar a começar tudo de novo.
Se a IA demora, parece que a conexão caiu. Se responde cedo demais, corta a explicação. Se fala por cima de uma correção, a pessoa perde o controle da conversa.
A Agora trabalha nessa camada com recursos de tratamento de interrupções, redução de ruído, cancelamento de eco e conexão com diferentes modelos. São capacidades declaradas pela empresa, a serem avaliadas em cada aplicação.
Para quem está construindo, vale um teste: interrompa a IA, mude um dado e peça que continue. Repita com barulho e conexão pior. A tarefa chega ao fim?
Do atendimento à execução
Imagine uma pessoa querendo reagendar uma visita técnica. Ela explica o motivo, informa os horários disponíveis e faz uma ressalva sobre o acesso ao prédio. Um assistente pode orientar onde encontrar o formulário. Um agente conectado à operação pode consultar a agenda, verificar as condições, apresentar opções e, depois da confirmação, registrar a mudança.
A conversa encontra dados, regras e ferramentas capazes de produzir um resultado.
O sistema precisa saber qual cadastro consultar, o que pode alterar, quando pedir confirmação e como agir se a agenda não estiver disponível. Precisa distinguir uma intenção de uma autorização e uma tentativa de uma ação concluída.
É nessa passagem que vejo uma grande oportunidade para empreendedores. Conhecer profundamente um processo pode ser mais valioso do que acrescentar mais uma funcionalidade genérica de IA. Quem entende as exceções de um negócio consegue enxergar onde a tarefa trava e o que precisa acontecer para que ela termine.
O agente precisa merecer a próxima permissão
Permitir que a IA altere um compromisso, envie uma proposta ou assuma uma obrigação cria uma relação de responsabilidade maior do que pedir uma sugestão.
Acredito numa autonomia construída por etapas. O agente observa, sugere e prepara uma ação para revisão. Em tarefas delimitadas, recebe permissão para executar. Os resultados ajudam a decidir onde ampliar essa permissão e onde manter uma pessoa envolvida.
Essa confiança depende de algo muito concreto: conseguir entender o que aconteceu. O agente consultou a informação certa? A alteração foi registrada? Houve uma falha? O caso foi encaminhado a alguém com contexto suficiente para continuar?
Uma resposta tranquila pode esconder uma informação incompleta. O produto precisa tornar a dúvida visível e saber pedir ajuda.
A infraestrutura também faz parte da experiência
A Agora, Inc. é uma companhia listada na Nasdaq sob o código API. O grupo reúne as operações das marcas Agora, voltada ao mercado global, e Shengwang, voltada ao mercado chinês. A trajetória em comunicação em tempo real ajuda a entender sua presença nessa conversa sobre IA.
A experiência depende da comunicação, do tempo do modelo, da consulta aos dados e dos sistemas que executam as tarefas.
Para o usuário, tudo aparece como uma experiência só. Se a consulta trava ou é preciso repetir a história para outro responsável, a tarefa continua difícil.
Existe ainda a conta da operação. Eu acompanharia o custo por tarefa resolvida, o retrabalho e a qualidade percebida por quem usou. É assim que uma possibilidade técnica começa a virar um negócio sustentável.
O espaço que vejo para o Brasil
Olhar para o que acontece aqui provoca uma pergunta prática: quais problemas do nosso contexto podemos resolver melhor com essas capacidades?
Há espaço em atendimento, educação, comércio e rotinas internas. Uma equipe pode reduzir o esforço para consultar informações espalhadas. Um aluno pode receber apoio para praticar uma conversa. Uma empresa pode organizar melhor o caminho entre o pedido do cliente e a entrega. Cada situação exige testar linguagem, dados, consentimento e limites no contexto em que o produto será usado.
Aproximar quem conhece esses problemas de quem consegue construir é parte do trabalho da NewHack e da proposta da AI House Brasil. A Agora é a primeira patrocinadora da AI House Brasil e parceira estratégica institucional da NewHack. Essa relação aproxima nosso ecossistema de uma empresa global de infraestrutura e IA conversacional.
Para mim, essa parceria ganha sentido ao criar condições para aprender, experimentar e construir. É também uma aplicação da discussão sobre capital social: aproximar pessoas, conhecimento e infraestrutura em torno de problemas que merecem ser resolvidos. O valor precisa aparecer no trabalho que conseguimos realizar juntos.
Saio desta discussão em Pequim com duas perguntas: qual tarefa alguém poderá confiar ao seu produto do começo ao fim? E o que faremos com o tempo e a capacidade que essa tecnologia liberar?
Quero ver essa capacidade chegar a produtos melhores e a mais gente conseguindo construir. Também quero que ela amplie o espaço para relações que precisam da nossa presença. A próxima fase da IA pode conversar e agir cada vez melhor. Cabe a nós decidir o que vale fazer com ela e com quem queremos construir.
Registro de Rodrigo Terron e NewHack, aprofundado com contexto e informações de fontes externas.
