14 aprendizados de uma semana na China
Comecei esta jornada por Shanghai, passei por Hangzhou e cheguei a Shenzhen. Ao longo de uma semana, visitei empresas de inteligência artificial, robótica, educação, serviços financeiros e mobilidade. Também participei de conversas sobre cultura e sobre como os negócios são construídos por aqui.
É muita informação para absorver em poucos dias. Não acho que uma semana seja suficiente para entender a China. Mas é suficiente para perceber que algumas das nossas perguntas sobre inovação precisam evoluir.
Qual modelo é melhor? Qual plataforma acabou de lançar uma funcionalidade? O que já conseguimos gerar com um prompt? Essas perguntas continuam importantes. Só que, nas visitas, minha atenção foi cada vez mais para outra questão: como tudo isso se conecta para fazer uma operação funcionar?
Organizei essa leitura em 14 aprendizados, com alguns checkpoints para levar a conversa para o negócio. São perguntas que trago das visitas: o que faz sentido para o Brasil, quem pode construir isso e por onde começar?

1. Uma viagem sobre tecnologia também precisa ser sobre formação
Uma das primeiras paradas em Shanghai foi a Shanghai Business School. Antes das visitas às empresas de tecnologia, conhecemos espaços de formação em hotelaria, com ambientes dedicados a café, chá e vinho, e participamos de aulas sobre inovação e cultura empresarial.
Começar por ali ajuda a lembrar de quem vai usar a tecnologia. A pessoa tem uma rotina, sabe fazer determinadas coisas e precisa aprender outras. Se uma empresa quer mudar a forma como esse trabalho acontece, também precisa se envolver nessa formação.
Essa pergunta vale para quem desenvolve o produto e para quem está comprando uma solução. Como as pessoas vão aprender a trabalhar com ela? Uma parte importante da implantação começa nessa resposta. Registro da Shanghai Business School.
Checkpoint prático: acompanhe uma atividade do começo ao fim. Onde a pessoa trava, a quem pede ajuda e o que precisa aprender?
2. Confiança se constrói no trabalho que continua depois do encontro
Na aula sobre negócios, confiança, cooperação e relações de longo prazo apareceram como assuntos centrais. A discussão passava por compreender o que o outro precisa alcançar e encontrar possibilidades de construir algo em conjunto.
Isso conversa muito com o que acredito sobre comunidade. Uma conexão ganha valor quando existe troca, continuidade e disposição para contribuir. Conhecer alguém pode abrir uma porta. Construir uma relação exige descobrir onde há interesse em comum, cumprir o que foi combinado e continuar útil para a outra parte.
A pergunta que fica é o que acontece depois de uma apresentação, de um evento ou de uma conversa com um possível parceiro. É nesse momento que começa o trabalho de construir junto. A aula trouxe uma perspectiva sobre isso, que precisa ser entendida no seu contexto. Registro da aula sobre cultura empresarial.
Checkpoint prático: escolha uma conversa que merece continuar. Com o que você pode contribuir e qual próximo passo faz sentido para os dois?
3. Vender o robô é só parte do trabalho
Na WhalesBot, havia kits, robôs, drones e ferramentas de programação. Junto dos equipamentos, a proposta incluía conteúdo, formação de professores, desafios e competições. A robótica educacional aparecia como parte de um percurso de aprendizagem.
Na prática, o produto precisa atender à criança que aprende, ao professor que conduz a atividade e à escola que incorpora aquilo à rotina. Cada pessoa encontra uma dificuldade diferente. Uma atividade interessante perde continuidade se o professor não consegue prepará-la ou se a escola não encontra condições para manter os equipamentos em uso.
Isso vale para muitos negócios brasileiros. Às vezes, construímos uma tecnologia interessante e deixamos para depois tudo o que faz alguém conseguir usá-la. Implantação, suporte e formação fazem parte da promessa ao cliente e podem ser o que sustenta o negócio. Insights da visita à WhalesBot.
Checkpoint prático: olhe para o que acontece depois da venda. Quem ajuda o cliente a começar e resolve a primeira dificuldade?
4. Fazer uma IA falar é diferente de conseguir conversar com ela
Nas visitas à iFLYTEK e à Agora, a linguagem apareceu em aplicações de tradução, educação, apoio ao trabalho e interação por voz. A conversa na Agora também se conectou ao trabalho que estou fazendo com meu próprio clone. Colocar uma voz numa IA abre uma série de perguntas sobre como a conversa vai funcionar.
Uma voz pode ser convincente e a experiência ainda ser ruim. A resposta pode demorar, ignorar uma correção ou continuar falando quando a pessoa quer interromper. São detalhes que parecem pequenos numa apresentação. No cotidiano, definem se alguém consegue realizar a tarefa e se vai querer usar o produto de novo.
No atendimento por voz, a conversa precisa chegar a algum lugar. A pessoa consegue explicar o que precisa, corrigir uma informação e continuar? Quando ela precisa de ajuda, alguém consegue assumir o caso? É nessa experiência que o produto vai ser avaliado. Registro da iFLYTEK e visita à Agora.
Checkpoint prático: teste uma conversa com interrupção e correção. Confira se a tarefa chega ao fim e em que momento precisa de uma pessoa.
5. Um bom modelo ainda precisa virar um bom produto
Na MiniMax, conversamos sobre modelos, produtos e distribuição. A visita ajudou a separar camadas que muitas vezes aparecem misturadas no debate sobre IA. Existe a capacidade do modelo, a experiência construída sobre ela e o caminho pelo qual alguém descobre, experimenta e incorpora o produto ao trabalho.
Uma melhoria técnica amplia o que é possível construir. Só que o cliente ainda precisa descobrir a solução, entender para que serve e conseguir usá-la. Essa passagem entre capacidade técnica, produto e distribuição merece tanta atenção quanto a escolha do modelo.
A visita conversa com uma ideia que venho defendendo: tecnologia e negócio precisam ser pensados juntos. Uma ferramenta pode fazer muita coisa e ainda faltar o caminho para alguém perceber valor nela. Quem conhece o cliente e quem entende a tecnologia têm trabalho para fazer em conjunto. Insights da visita à MiniMax.
Checkpoint prático: explique como o cliente encontra a solução, o que consegue fazer no primeiro uso e por que voltaria.
6. Um alerta só ganha valor quando encontra uma decisão
Em Hangzhou, a Hikvision aproximou a IA do mundo físico. Vimos demonstrações envolvendo imagens, sensores, percepção acústica e automação. Uma peça industrial podia ser observada para apoiar uma inspeção. Um sinal captado no ambiente podia orientar um alerta.
Isso amplia a conversa sobre inteligência artificial. Ela pode participar da identificação de uma falha, da avaliação de qualidade e da organização de um processo físico. O valor depende também do que acontece depois: quem recebe a informação, que decisão precisa tomar e como essa decisão chega à operação.
Depois do alerta, quem faz o quê? Talvez a dificuldade esteja em detectar uma falha. Talvez a informação já exista e demore para chegar a quem pode agir. As duas situações abrem oportunidades diferentes para quem conhece aquela operação. Registro da visita à Hikvision.
Checkpoint prático: acompanhe um alerta real até a resolução. Onde o caso fica esperando e quem pode destravá-lo?
7. A IA começa a assumir uma sequência de trabalho
Na Alibaba, a execução apareceu em rotinas comerciais. Um dos exemplos apresentados conectava uma demanda recebida por e-mail à pesquisa de fornecedores, à preparação de propostas e ao retorno para o cliente. Era uma sequência com objetivo, informações e ferramentas que precisavam conversar entre si.
O que me interessa nessa aplicação é a possibilidade de entregar uma tarefa mais completa. Uma boa resposta pode ajudar, mas ainda deixar alguém copiando informações entre sistemas e cobrando o próximo retorno. Quando a IA participa dessa sequência, o produto começa a assumir uma parte maior da entrega.
Isso também muda a pergunta de quem está construindo: qual parte desse trabalho o meu produto consegue resolver? Para responder, é preciso conhecer os sistemas, as exceções e quem pode autorizar cada etapa. Registro da visita à Alibaba.
Checkpoint prático: escolha uma rotina entre o pedido e a entrega. Que parte você consegue resolver, incluindo revisão e retrabalho?
8. Empreender sozinho continua sendo um trabalho em rede
Foi nesse contexto que discutimos OPC, ou One Person Company. Uma pessoa conseguindo coordenar uma capacidade de execução maior com apoio de agentes, plataformas e serviços. Para mim, essa é uma das discussões mais interessantes para o empreendedorismo: ampliar as possibilidades de começar e construir com uma estrutura própria menor.
Mas essa pessoa continua dependendo de fornecedores, infraestrutura, distribuição e relações comerciais. A conversa no Sandbox, mais adiante em Shenzhen, trouxe esse ponto para o hardware. Projeto, fabricação, qualidade, logística e atendimento permanecem necessários, mesmo quando ferramentas tornam algumas tarefas mais acessíveis.
Vejo uma oportunidade grande de mais gente conseguir começar. Uma pessoa com conhecimento de um problema pode ganhar capacidade de construir, testar e chegar ao cliente. Conforme o negócio cresce, entender onde precisa de outras pessoas e como trabalhar com elas continua fazendo parte do caminho. Conversa sobre agentes e OPC na Alibaba e registro do Sandbox.
Checkpoint prático: o que você já consegue construir com IA e onde ainda precisa de um parceiro? Procure a capacidade que falta para o próximo passo.
9. Infraestrutura boa também ajuda a aprender
Em Shenzhen, no WeBank, conversamos sobre dados, arquitetura, decisões de crédito e operação em escala. Uma parede de certificados de patentes tornava visível parte do conhecimento técnico acumulado pelo banco. Um ponto especialmente interessante foi perceber como a infraestrutura também pode criar condições para experimentar uma mudança, acompanhar o resultado e decidir se faz sentido ampliar.
A conversa sobre levar referências desse modelo para o Brasil trouxe uma ressalva importante: seria necessário estudar os dados, os clientes e as condições locais. Esse cuidado vale para a viagem inteira. Conhecer uma solução em outro país oferece repertório. Aplicá-la exige compreender por que ela funciona e o que muda no nosso contexto.
Antes de ampliar uma mudança, precisamos conseguir aprender com ela. Quem participa do teste, qual resultado vamos acompanhar e o que faria a gente mudar de direção? A infraestrutura ajuda quando permite responder a essas perguntas com dados do que aconteceu. Insights da visita ao WeBank.
Checkpoint prático: antes de um teste, registre o que você quer descobrir e como vai perceber se houve melhora.
10. O produto novo começa muito antes do lançamento
No museu da BYD, uma placa com o nome “BYD Battery Co., Ltd.” ajudava a contar uma história que começou antes dos carros. O percurso conectava baterias, componentes, pesquisa e a expansão para o setor automotivo. Em outra instalação, as peças de um veículo apareciam separadas e suspensas, permitindo enxergar o conjunto de sistemas por trás do produto acabado.
É uma boa imagem para pensar sobre inovação. A gente vê o lançamento. Nem sempre vê os anos de aprendizado, as competências e as escolhas que tornaram aquele lançamento possível. Mesmo quando a tecnologia acelera uma etapa, continua existindo trabalho de engenharia, coordenação, teste e melhoria.
Essa perspectiva ajuda a olhar para a própria empresa. O conhecimento acumulado pode abrir uma oportunidade que ainda não está óbvia. Vale entender o que já sabemos fazer e onde isso pode encontrar um novo problema para resolver. Registro da visita ao museu da BYD.
Checkpoint prático: qual capacidade sua empresa já construiu e poderia usar para resolver um novo problema?
11. Saber fabricar e saber vender precisam se encontrar
No Sandbox, em Shenzhen, a conversa reuniu hardware de IA, construção de marcas e operação internacional. A Wapitee trouxe a perspectiva de aproximar produtos de consumidores em outros mercados. A capacidade de produzir precisava encontrar uma proposta que fizesse sentido para alguém comprar e usar.
O encontro mostrou como engenharia e mercado precisam aprender juntos. Posicionamento, experiência de uso, comunicação e distribuição ajudam a definir o que vale construir. A discussão sobre crowdfunding acrescentou uma distinção importante: a visibilidade de uma campanha não permite concluir, sozinha, que fabricar, entregar e sustentar o produto serão economicamente viáveis.
Quem conhece o cliente, quem consegue produzir e quem entende a distribuição têm partes desse problema para resolver. Aproximar essas pessoas é uma oportunidade para as comunidades de empreendedores no Brasil. A troca ganha outra dimensão quando ajuda alguém a construir e colocar um produto no mercado. Registro da visita ao Sandbox.
Checkpoint prático: além do interesse em comprar, o que você precisa conferir para conseguir fabricar, entregar e sustentar o produto?
12. Uma equipe de agentes também precisa ser organizada
Na Zhuiyi Technology, a apresentação colocou uma equipe de agentes especialistas no centro da proposta. Atendimento ao cliente, assistência ao funcionário, apoio à decisão e operação do sistema apareciam como funções complementares. Uma das passagens descreveu uma simulação: um agente representa um cliente difícil, outro executa a tarefa e um observador avalia a interação.
Esse desenho ajuda a tornar o trabalho visível. O que cada agente recebe? Que decisão pode tomar? Em que momento precisa passar o caso adiante? A simulação oferece situações para aprender, e o uso real vai trazer outros comportamentos para acompanhar.
A conversa também chegou ao trabalho das pessoas. Na resposta sobre emprego, a equipe admitiu redução ou reorganização em parte das operações e mencionou realocação. Quem implanta essa mudança precisa cuidar de como o time vai trabalhar, aprender e assumir novas responsabilidades. Registro da visita à Zhuiyi.
Checkpoint prático: ensaie uma exceção. Quem percebe o problema, pode intervir e ajuda o time a trabalhar com o novo processo?
13. Óculos com IA precisam ajudar numa situação real
Na INMO, a IA ganhou a forma de óculos que colocam informação no campo de visão. Tradução, orientação e apoio a apresentações entraram na conversa. As famílias de produtos tinham propostas e arquiteturas diferentes, e uma pergunta sobre navegação levou à discussão de uma atualização futura com Google Maps.
O contato com os dispositivos aproximou a discussão da atividade da pessoa. Acompanhar uma conversa, consultar um roteiro e receber uma orientação são necessidades distintas. A utilidade depende de quando a informação aparece e do esforço para usá-la. Conforto, bateria, conectividade e ambiente entram na mesma avaliação.
Essa é uma forma de olhar para os óculos: em que situação ter a informação ali, no campo de visão, ajuda? A resposta depende da tarefa, do dispositivo e das funções que já estão disponíveis. Experimentar nesse contexto é o próximo passo para entender onde o produto faz sentido. Registro da visita à INMO.
Checkpoint prático: escolha uma tarefa em que os óculos poderiam ajudar. Confira o modelo, o software disponível e como a experiência muda sem conexão.
14. A IA e a robótica vão se encontrar cada vez mais
Minha aposta é que vamos ver uma aproximação cada vez maior entre inteligência artificial e robótica. Sistemas capazes de interpretar informações, coordenar tarefas e, em determinados contextos, orientar ações no mundo físico. Essa perspectiva apareceu de maneiras diferentes na educação, na percepção industrial, nos agentes e nas interfaces que conhecemos.
Isso pode ampliar o que uma pessoa ou uma equipe pequena consegue realizar. Para quem conhece um problema da educação, da indústria, dos serviços ou do comércio no Brasil, há espaço para construir. O conhecimento daquele trabalho ajuda a reconhecer onde a tecnologia pode entrar e o que precisa funcionar para alguém usá-la.
Junto da capacidade de construir vêm decisões sobre segurança, dados, manutenção e responsabilidade. Professor, operador, desenvolvedor, cliente e parceiro têm conhecimentos diferentes para contribuir. Colocar essas pessoas na conversa pode ajudar a transformar uma possibilidade técnica em algo que funcione no cotidiano.
Checkpoint prático: qual problema do seu setor você passou a enxergar de outro jeito? Converse com quem vive isso e escolha uma hipótese para testar.
Volto dessas visitas com perguntas melhores sobre o que podemos construir no Brasil. Para começar, escolheria um dos checkpoints e uma rotina concreta. Colocaria alguém responsável, um prazo e uma forma de acompanhar se o teste ajudou.
Quero continuar conhecendo tecnologias novas. Mas quero principalmente entender quais delas podemos transformar em negócios melhores, oportunidades de aprendizagem e soluções que façam diferença na vida das pessoas no Brasil.
Para mim, esse é um caminho para o trabalho da NewHack: aproximar conhecimento, gente e oportunidades para que mais empreendedores consigam experimentar e colocar suas ideias em funcionamento. Reuni os registros das visitas e as fotos da viagem para continuar essa conversa.
