A próxima geração de startups talvez não venda software. Vai vender trabalho feito.
Estou em Las Vegas acompanhando o Oracle AI World 2026, e os anúncios que movimentam o evento apontam para uma mudança importante: a inteligência artificial está deixando de apenas ajudar pessoas a trabalhar para começar a executar processos inteiros. O que isso significa para o Brasil e para quem está construindo uma startup?

Nas últimas semanas, passei pela Califórnia e pela China, visitando empresas de tecnologia, conhecendo novas soluções e conversando com empreendedores de diferentes partes do mundo. Agora estou em Las Vegas, acompanhando o Oracle AI World 2026.
Uma coisa tem ficado cada vez mais clara nessas conversas: estamos começando a discutir inteligência artificial de uma forma diferente.
Há pouco tempo, quase tudo girava em torno dos modelos. Qual era mais inteligente? Qual programava melhor? Qual conseguia produzir os melhores textos ou imagens?
Essas perguntas continuam importantes, mas existe outra discussão ganhando força.
O que acontece quando a inteligência artificial deixa de apenas ajudar uma pessoa a trabalhar e começa a executar parte do trabalho por ela?
Essa é uma das principais mensagens que aparecem nos anúncios da Oracle nesta segunda-feira.
Não acompanhei presencialmente a keynote de abertura, mas estou aqui no evento e fui olhar com atenção o que a empresa está apresentando e, principalmente, o que isso representa além do ecossistema Oracle.
Porque, olhando apenas para os nomes dos produtos, pode parecer mais uma sequência de lançamentos corporativos. Mas acredito que existe uma mudança muito maior acontecendo.
O software está começando a executar o trabalho
Para entender a importância dos anúncios, vale lembrar que a Oracle está presente em uma camada fundamental da operação de milhares de empresas: os sistemas que gerenciam finanças, pessoas, estoques, compras e vendas.
Seu conjunto de aplicações chamado Oracle Fusion reúne justamente essas ferramentas de gestão empresarial.
E é dentro desses sistemas que a companhia está incorporando uma nova geração de inteligência artificial.
Entre os anúncios de hoje estão 25 aplicações agênticas disponíveis para diferentes áreas de negócio.
Mas o que isso significa na prática?
Imagine a diferença entre pedir para uma IA analisar uma planilha e pedir para ela investigar uma divergência financeira, consultar informações em diferentes sistemas, identificar possíveis causas e preparar uma correção para aprovação.
No primeiro caso, a IA ajuda alguém a trabalhar. No segundo, ela participa da execução do processo.
Outro anúncio interessante foi o Fusion Companion, uma tecnologia que interpreta o objetivo de um usuário e coordena as ferramentas, os agentes e as aprovações necessárias para realizar determinada atividade.
Já o Fusion Agentic Home funciona como uma interface dentro do Oracle Fusion na qual as pessoas podem delegar tarefas aos agentes e acompanhar sua execução.
Pensa em um gestor que precisa resolver um problema de compras. Em vez de navegar por várias telas, consultar contratos, verificar fornecedores e iniciar aprovações manualmente, ele poderia descrever o problema e deixar o sistema coordenar as etapas autorizadas.
A Oracle também apresentou a possibilidade de acessar essas capacidades por ferramentas como o ChatGPT.
Isso aponta para algo interessante: talvez o usuário não precise mais conhecer tão profundamente a interface de cada software para conseguir realizar seu trabalho.
Se a IA entende o objetivo e consegue executar o processo, o valor do software começa a migrar da ferramenta para o resultado.

E o que isso muda para quem está construindo uma startup?
Essa discussão me interessa especialmente porque passei boa parte da minha trajetória construindo empresas de tecnologia.
Na Shawee, acompanhei como o software poderia transformar a organização de hackathons. Depois, na Rocketseat, vivi de perto a evolução das ferramentas e da forma como desenvolvedores aprendiam a construir produtos.
Hoje, com a NewHack, converso frequentemente com founders que estão criando soluções baseadas em inteligência artificial.
E existe uma pergunta que considero cada vez mais importante.
Se uma startup vende um software que ajuda alguém a executar determinada atividade, o que acontece quando uma plataforma maior passa a realizar aquela mesma atividade automaticamente?
Imagine uma startup que oferece uma ferramenta de análise de despesas corporativas.
Seu produto organiza informações, gera relatórios e ajuda gestores a identificar oportunidades de economia.
Agora imagine que o próprio sistema financeiro do cliente incorpore um agente capaz de analisar contratos, identificar gastos fora das políticas e recomendar ou executar ações autorizadas.
A startup não perde necessariamente seu mercado. Mas sua proposta de valor começa a ser questionada.
Talvez precise oferecer uma solução mais especializada, integrar diferentes sistemas ou até mudar a maneira como cobra pelo produto.
Durante décadas, grande parte do mercado SaaS cresceu vendendo assinaturas e licenças de software.
A IA abre espaço para modelos em que o cliente paga por documentos processados, operações concluídas ou resultados entregues.
Isso não significa o fim do SaaS. Significa que parte da indústria poderá precisar repensar o que realmente está vendendo.
E existe uma diferença enorme entre vender acesso a uma ferramenta e assumir responsabilidade pela execução de um trabalho.
As big techs têm vantagem, mas isso não elimina o espaço das startups
Existe um aspecto importante nessa transformação.
A Oracle não está começando do zero. Ela já possui clientes, sistemas implementados, dados empresariais e relacionamentos comerciais construídos ao longo de décadas.
Isso representa uma vantagem competitiva enorme.
Uma startup pode desenvolver uma experiência de IA excelente, mas ainda precisa convencer o cliente a contratar sua solução, integrá-la aos sistemas existentes e confiar nela para executar processos importantes.
Por outro lado, grandes plataformas não conseguem resolver todos os problemas de todos os setores.
E é justamente nesse espaço que vejo oportunidades.
Startups podem construir soluções especializadas para mercados como agronegócio, logística, saúde, indústria e serviços financeiros.
Podem também conectar sistemas diferentes, algo especialmente relevante em empresas que utilizam tecnologias de múltiplos fornecedores.
Mas existe um ponto que considero fundamental: uma demonstração impressionante de IA não significa necessariamente um negócio funcionando.
Empresas reais possuem dados incompletos, regras específicas, processos antigos e situações inesperadas.
Um agente precisa saber quando executar uma ação, quando pedir aprovação e quando reconhecer que não possui informações suficientes.
A próxima geração de startups de IA precisará dominar não apenas a tecnologia, mas também os processos que pretende automatizar.
O Brasil pode ter uma oportunidade interessante nessa transformação
O Brasil possui um mercado empresarial grande, setores complexos e inúmeras operações que ainda dependem de trabalho manual, planilhas e sistemas que não conversam entre si.
Ao mesmo tempo, temos empreendedores e profissionais de tecnologia que conhecem profundamente esses problemas.
Uma startup brasileira que entende as particularidades de um processo tributário, de uma operação logística ou de um fluxo de atendimento pode encontrar oportunidades que uma plataforma global não consegue atender com a mesma profundidade.
Não precisamos necessariamente desenvolver o modelo de inteligência artificial mais avançado do mundo para construir empresas relevantes utilizando IA.
Podemos criar valor combinando modelos existentes com conhecimento especializado, dados, integrações e distribuição.
E existe outro movimento interessante acontecendo: grandes empresas de tecnologia estão criando caminhos para que startups construam produtos dentro de seus ecossistemas.
A própria Oracle possui o Oracle Startup Growth Engine, um programa voltado a startups com produtos validados e potencial de crescimento.
A iniciativa contempla possibilidades de créditos de infraestrutura, orientação técnica, preparação para vendas corporativas e acesso ao Oracle Cloud Marketplace, plataforma na qual empresas podem disponibilizar soluções para clientes do ecossistema Oracle.
Mais do que infraestrutura, o ponto interessante é a possibilidade de aproximação com grandes clientes corporativos.
Para uma startup B2B, distribuição pode ser tão importante quanto tecnologia.
O programa apresentado no site oficial possui condições específicas para a operação europeia, e a participação e os benefícios dependem de avaliação. Vale acompanhar a disponibilidade e os critérios aplicáveis às startups brasileiras.
Para quem está construindo uma solução de IA com foco empresarial, é uma iniciativa que merece atenção.
Conheça o Oracle Startup Growth Engine
A pergunta que fica para os founders
O Oracle AI World continua acontecendo aqui em Las Vegas, e ainda temos outros dias de apresentações, demonstrações e conversas pela frente.
Quero aproveitar esse período para entender melhor como essas tecnologias estão sendo aplicadas, quais resultados as empresas estão conseguindo alcançar e onde ainda existem limitações.
Mas os anúncios de hoje já reforçam uma percepção que venho construindo ao longo dessas viagens.
A próxima fase da inteligência artificial não será definida apenas por modelos que respondem melhor.
Será cada vez mais influenciada por sistemas capazes de compreender contextos, coordenar atividades e executar processos com confiabilidade.
Para as grandes empresas, isso representa uma oportunidade de redesenhar operações. Para os desenvolvedores, muda parte das competências necessárias para construir produtos.
E, para os founders, abre uma discussão que vai muito além de adicionar IA ao software.
Talvez a pergunta mais importante para a próxima geração de startups não seja qual software vamos construir, mas qual trabalho vamos conseguir realizar melhor do que qualquer outra alternativa.
É uma mudança de perspectiva que vale acompanhar de perto.
E, nos próximos dias, quero continuar compartilhando o que está sendo discutido por aqui e o que isso pode significar para o ecossistema brasileiro de tecnologia.
