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Imersão no Vale do Silício: como transformar a viagem em decisões

Uma imersão no Vale do Silício pode ser preparada como um ciclo de aprendizado: sair com perguntas sobre o negócio, registrar o contexto do que foi observado e voltar com decisões que possam ser testadas. Para isso, a agenda precisa se conectar ao momento da empresa, e a aplicação dos aprendizados precisa ter espaço no calendário da volta.

Quando morei seis meses no Vale, em 2019, uma parte importante do meu aprendizado veio de observar como as pessoas pensavam e tomavam decisões. No Aura, contei que voltava com anotações e ideias que continuava elaborando por meses. Uma estadia longa e uma missão de poucos dias oferecem experiências diferentes; essa forma de observar, porém, ajuda a preparar ambas. Conversa com Lucas Abreu, a partir de 01:11:32.

O roteiro a seguir é uma proposta para quem quer conectar uma imersão empresarial às próximas escolhas da empresa. Pode ser adaptado por um fundador, uma liderança de negócio ou uma equipe de inovação.

No artigo sobre o que uma imersão no Vale ensina a um founder brasileiro, discutimos a mudança de perspectiva. Aqui, vamos à preparação e ao trabalho que continua depois da viagem.

Escolha as perguntas antes de escolher os encontros

“Quero entender o futuro da IA” é um ponto de partida. Para orientar uma agenda, vale transformar essa curiosidade em questões mais específicas. Qual etapa do seu negócio merece ser observada? Onde existe uma decisão travada por falta de repertório ou de evidência?

Uma empresa pode querer entender como outras equipes colocam uma aplicação de IA em uso. Outra pode investigar canais de distribuição, organização de produto ou expansão internacional. Esses objetivos levam a perguntas e interlocutores diferentes.

Escolha poucas questões e registre o que você pensa hoje sobre cada uma. Por exemplo: “acreditamos que precisamos contratar mais gente para atender o volume; queremos entender quais partes do processo poderiam ser reorganizadas”. Isso cria um ponto de comparação para perceber se a viagem mudou a hipótese inicial.

Procure o contexto por trás de uma boa resposta

Ao ouvir uma experiência, pergunte como a empresa chegou àquela decisão. Qual problema existia? O que tentaram antes? Quais recursos estavam disponíveis? O que deu mais trabalho do que parecia?

Uma prática adotada por uma companhia pode depender de uma equipe, de dados ou de um modelo comercial muito diferente do seu. Entender essas condições ajuda a identificar o que pode ser adaptado ao voltar ao Brasil.

Também vale separar experiência e previsão. “Implementamos desta forma e observamos este resultado” traz um tipo de evidência. “Acreditamos que o mercado caminhará para cá” traz uma hipótese. As duas conversas podem ser úteis, desde que as anotações preservem a diferença.

Dê continuidade às conversas relevantes

Na imersão, chegue às conversas com contexto para compartilhar. Explique o problema que está investigando, conte brevemente o que já tentou e faça uma pergunta que a outra pessoa consiga responder a partir da própria experiência.

Se fizer sentido continuar, combine um próximo passo específico: enviar um material citado, apresentar alguém ou marcar uma conversa sobre uma questão que ficou aberta. Registre o compromisso e cumpra o combinado. A relação ganha continuidade quando existe uma troca útil para ambos.

Use uma ficha simples para registrar o aprendizado

Ao final de cada dia, reserve um intervalo para preencher:

  • Pergunta inicial: o que eu queria entender?
  • Evidência: o que ouvi ou observei, de quem e em qual contexto?
  • Interpretação: o que isso pode significar para a nossa empresa?
  • Diferenças: quais condições daqui e de lá precisam ser consideradas?
  • Próximo passo: o que podemos investigar ou testar, com quem e até quando?

Esse modelo ajuda a preservar o raciocínio. Uma foto de slide pode guardar a frase, mas a anotação registra por que ela chamou sua atenção. Se houver dados compartilhados em caráter reservado, respeite o combinado antes de repassá-los à equipe.

Transforme uma observação em um teste pequeno

Imagine um exemplo hipotético: um fundador de software B2B conhece uma empresa que vende por parceiros especializados e considera repetir o modelo no Brasil. A operação que observou tem parceiros experientes e uma implantação padronizada; a sua ainda depende de acompanhamento direto do fundador.

Uma decisão possível é conversar com alguns potenciais parceiros, entender o apoio que exigiriam e documentar a implantação antes de abrir um novo canal de vendas. Se houver condições, a equipe pode testar uma parceria delimitada e avaliar o esforço para atender o cliente. A viagem orientou uma investigação; o modelo ainda precisa provar que funciona naquele contexto.

Para cada iniciativa escolhida, defina uma pessoa responsável, os recursos disponíveis e a evidência que ajudará a decidir o que fazer depois. Algumas ideias vão para teste. Outras exigem pesquisa adicional. Algumas podem ser arquivadas com uma justificativa clara.

Como avaliar se a imersão foi útil?

Retome as perguntas que você escreveu antes de viajar. Quais ficaram mais claras? Que hipótese mudou? Que decisão pôde ser tomada? Quais relações tiveram continuidade e contribuíram para esse trabalho?

Receita e redução de custos podem aparecer depois, mas atribuí-las à viagem exige acompanhar outros fatores que também influenciam o resultado. No começo, uma decisão melhor fundamentada ou um experimento bem definido já permite avaliar parte do aprendizado. Agende essa revisão antes de embarcar, para que ela tenha lugar entre as demandas da volta.

Ao avaliar uma missão, compartilhe seus objetivos e procure entender como a agenda conversa com eles. Conheça a Missão Internacional da NewHack no Vale do Silício e leve essas perguntas para a conversa sobre a próxima imersão.

Founder da NewHack e da Entrypoint. Cofundador e ex-CEO da Shawee, que se fundiu à Rocketseat, onde foi COO e CEO. Aplica essa experiência na conexão entre empresas, desenvolvedores e empreendedores. Lidera também a AI House Brasil e escreve sobre empreendedorismo, inovação e IA aplicada a quem constrói.